Isso, porém, não confirma que Subaru seja Flugel. O próprio Subaru trata a situação como uma identificação errada, e a obra ainda preserva a origem dessa semelhança como parte de um mistério maior. A resposta segura é esta: Shaula acredita que Subaru é Flugel por causa do cheiro; por que esse sinal coincide ainda não foi explicado de forma definitiva.

Shaula não reconhece Subaru pelo rosto
A primeira reação de Shaula parece absurda justamente porque não existe uma apresentação normal entre os dois. Subaru desperta dentro da torre e encontra uma garota extremamente apegada a ele, chamando-o de “Mestre” como se o reencontro estivesse atrasado havia muito tempo. O episódio 70 usa esse contraste para criar duas perguntas ao mesmo tempo: quem Shaula estava esperando e por que ela olha para Subaru como se a resposta fosse óbvia?
As regras do Retorno pela Morte que Subaru não consegue controlar em Re:Zero 9 min de leituraA explicação desmonta a hipótese mais simples. Shaula não é boa em distinguir pessoas pela aparência. Quando a diferença física entre Subaru e a figura associada ao antigo Sábio entra na conversa, ela não vê aquilo como um problema. Para ela, o critério usado para reconhecer o mestre é outro.
O cheiro de Subaru é o que encerra a dúvida de Shaula. Ela o descreve de forma nada gentil, mas sua certeza é completa: aquele é o sinal que ela conhece. A graça da cena vem de Subaru reagir como se tivesse acabado de descobrir um problema de higiene, enquanto os outros percebem que a resposta abre um problema histórico muito maior.

Essa escolha também evita uma solução fácil. Se Shaula reconhecesse Flugel por rosto, voz ou alguma marca física, bastaria comparar descrições. O cheiro é muito mais difícil de transformar em prova externa. Só ela afirma reconhecer o sinal, e Subaru não possui lembranças de ter convivido com ela.
O Mestre que Shaula espera é Flugel
O segundo passo é separar Shaula do título de Sábio que chegou até a época de Subaru. O grupo viaja à Torre de Vigilância procurando a lendária “Sábia Shaula”, uma das figuras ligadas à história de quatrocentos anos atrás. Quando finalmente encontra a própria Shaula, a versão conhecida pelo mundo começa a desmoronar.
Ela não se apresenta como a grande mente responsável por aquela fama. Ao falar do seu mestre, dá outro nome: Flugel. É ele quem Shaula trata como a figura superior a quem servia e por quem demonstra uma lealdade quase absoluta.
Esse detalhe reorganiza a lenda. O nome de Shaula ficou ligado à imagem do Sábio, enquanto a própria Shaula aponta Flugel como seu mestre. O anime transforma uma busca aparentemente simples — encontrar uma pessoa sábia e pedir respostas — em mais um caso de história mal preservada dentro de Re:Zero.

Flugel também não é um nome totalmente novo para Subaru. A Árvore de Flugel já tinha aparecido muito antes como peça decisiva na batalha contra a Baleia Branca. A conexão com a torre mostra que aquele nome não pertencia apenas a uma árvore famosa: havia uma pessoa real por trás dele, inserida no mesmo passado remoto de Reid e Volcanica.
Por isso, o choque de Subaru é importante. Shaula não está inventando um apelido carinhoso para alguém que acabou de conhecer. Ela está atribuindo a Subaru a identidade de uma figura histórica que ele próprio conhece apenas por vestígios.
O cheiro é uma pista forte, mas não prova que Subaru seja Flugel
É aqui que a teoria mais tentadora precisa ser contida. Se Shaula conheceu Flugel e diz que Subaru tem exatamente o sinal pelo qual reconheceria seu mestre, é natural perguntar se Subaru e Flugel são a mesma pessoa.
O episódio entrega material suficiente para levantar essa hipótese, mas não para fechá-la. Shaula possui certeza; Subaru, não. A história mostra a identificação dela e, ao mesmo tempo, faz questão de manter a incompatibilidade entre as memórias de Subaru e o passado que Shaula atribui a ele.
Isso combina com a forma como Re:Zero trabalha seus mistérios. Uma pista pode ser verdadeira sem a interpretação mais imediata também ser. O cheiro pode ligar Subaru a Flugel de alguma maneira sem significar, automaticamente, que o protagonista viajou quatrocentos anos ao passado, perdeu memórias ou viveu uma segunda identidade. Nenhuma dessas respostas é necessária para explicar o comportamento de Shaula no episódio 70.

Há outra razão para manter a distinção: Subaru já carrega sinais sobrenaturais que outras criaturas e personagens percebem de maneiras que ele não controla. O próprio Retorno pela Morte possui regras e conexões que Subaru ainda não domina. Usar uma dessas lacunas para declarar “Subaru é Flugel” apenas trocaria uma pergunta por uma resposta que o anime ainda não confirmou.
A leitura mais sólida é menos espetacular e mais útil: Shaula está dizendo a verdade sobre como reconhece seu mestre, mas a conclusão que ela tira desse reconhecimento ainda pode estar incompleta.
A lenda de Shaula estar errada é parte do mesmo mistério
A identificação de Subaru não acontece isoladamente. Ela surge justamente quando o grupo percebe que muito do que sabia sobre a Torre de Pleiades e seus personagens históricos estava torto.
Shaula é conhecida como Sábia por quem vive no presente, mas fala de Flugel como o verdadeiro mestre. Reid aparece ligado aos testes da torre de uma maneira que também desafia a imagem limpa de “grandes heróis” passada pela história. Até o funcionamento da Grande Biblioteca depende de regras que os visitantes precisam reconstruir na prática.
Essa sequência deixa uma ideia bem clara: quatrocentos anos foram suficientes para nomes, feitos e papéis se misturarem. Nesse contexto, a fala de Shaula vale mais do que a tradição pública para explicar quem ela própria servia, mas nem ela possui todas as respostas que Subaru gostaria de obter.
É um acerto do arco não transformar Shaula em uma enciclopédia ambulante. Ela sabe coisas impossíveis para os personagens atuais, porém sua memória, sua forma de perceber pessoas e sua lealdade a Flugel criam novos pontos cegos. O resultado é mais interessante do que simplesmente chegar à torre e receber uma aula sobre o passado.
A relação entre Shaula e Subaru nasce de uma identidade que só um dos dois aceita
O efeito mais curioso dessa revelação aparece no comportamento dos dois. Para Shaula, não existe fase de aproximação. Ela já esperou pelo Mestre, já o admira e já organiza sua postura em torno dessa lealdade. Subaru recebe toda essa intimidade sem ter construído nenhuma das lembranças que justificariam o vínculo.
Isso produz uma relação desequilibrada desde o primeiro minuto. Shaula age como alguém que reencontrou uma pessoa importante; Subaru age como alguém que foi colocado no papel de outra pessoa. A comédia física e o jeito exagerado dela escondem um desconforto que fica maior quanto mais sério o passado de Flugel parece.
Também explica por que não faz sentido tratar a devoção de Shaula como uma paixão que nasceu ao conhecer Subaru na torre. O sentimento já existia antes daquele encontro. O alvo original era o Mestre que ela associa a Flugel; Subaru entra nessa posição porque passa pelo critério que Shaula usa para reconhecê-lo.

Para quem acompanha a 4ª temporada, isso torna o retorno da série ao arco ainda mais interessante. O Yoruneko já reuniu as novidades do Recapture Arc e sua retomada em agosto, mas a pergunta sobre Flugel é maior do que uma data de exibição: ela toca diretamente em quem Subaru é dentro da história antiga desse mundo.
O episódio 70 dá uma resposta completa para o comportamento de Shaula e deixa outra pergunta deliberadamente aberta. Ela chama Subaru de Mestre porque o cheiro dele corresponde ao de Flugel segundo a memória dela. O que Re:Zero ainda precisa explicar é por que essa correspondência existe.
Até essa peça aparecer, “Shaula reconheceu Subaru como Flugel” é fato da perspectiva dela; “Subaru é Flugel” continua sendo hipótese.