A revelação muda a leitura do professor desde o início da história. O homem paciente que recebe Coco em seu ateliê não está apenas investigando uma organização perigosa por dever. Ele procura os responsáveis por terem roubado seu corpo, sua memória e a possibilidade de levar uma vida comum. Para conhecer primeiro as regras que tornaram esse conflito possível, vale também ler por que a magia é escondida dos leigos em Witch Hat Atelier.
O que aconteceu com o olho direito de Qifrey?
Durante boa parte da obra, o olho escuro dos óculos de Qifrey funciona como um detalhe visual estranho, mas discreto. A lente direita não é apenas uma escolha de estilo. Ela esconde a cicatriz deixada onde seu olho foi removido e, ao mesmo tempo, ajuda a proteger o olho esquerdo, sensível à luz.
Magia proibida em Witch Hat Atelier: regras, riscos e punições 9 min de leituraO capítulo 36 oferece a primeira resposta direta: ainda criança, Qifrey teve o olho e parte das lembranças tomados pelos Chapéus com Aba. Depois disso, foi colocado em um caixão e enterrado sob uma árvore na Floresta de Thristas. A chuva começou a preencher o espaço fechado, e ele quase morreu afogado antes de ser encontrado pelos Cavaleiros Moralis e acolhido por Beldaruit.

Nesse ponto, o mangá já deixa claro que a mutilação não aconteceu por acaso. O grupo quis esconder o que tinha feito. Tirar as memórias e enterrar a criança transforma a vítima em alguém incapaz de denunciar os responsáveis, mesmo se sobreviver. O olho perdido é, portanto, uma prova física de um crime que a mente de Qifrey foi forçada a esquecer.
O olho é prova de um experimento, não de uma batalha
A história completa, revelada muito depois, torna a situação ainda mais grave. Os Chapéus com Aba não removeram o olho apenas para ferir Qifrey. No lugar dele, implantaram uma Silverwood, uma árvore parasita capaz de criar raízes no corpo de seu hospedeiro.
Isso mostra um método de pesquisa baseado na transformação de pessoas vivas. O corpo de Qifrey foi usado para testar uma magia proibida, e o resultado continuou ativo por anos. Ele não saiu do experimento apenas com uma cicatriz: carrega dentro de si um organismo mágico que pode voltar a crescer.
A diferença é importante porque impede uma leitura simplista dos Chapéus com Aba como rebeldes que apenas desejam devolver a magia ao povo. Há integrantes interessados em possibilidades que os Chapéus Pontudos proibiram, mas o caso de Qifrey mostra que essa busca pode ignorar consentimento, sofrimento e sobrevivência. Para quem conduziu o teste, a criança era menos uma pessoa do que um recipiente.
Por que apagar as memórias e enterrá-lo vivo?
O apagamento de memória cumpria duas funções. A primeira era esconder a identidade e os procedimentos dos responsáveis. Sem lembrar quem o capturou, onde esteve ou o que fizeram com seu corpo, Qifrey não poderia reconstruir facilmente o caminho até o laboratório dos Chapéus com Aba.
A segunda função estava ligada ao próprio funcionamento da Silverwood. A árvore parasita reage quando o hospedeiro sente conforto, esperança ou alívio. Ao retirar suas lembranças e abandoná-lo em uma situação de terror, os experimentadores impediram que ele compreendesse por que seu corpo reagia dessa forma. Até sentimentos positivos se tornaram perigosos sem que ele soubesse a causa.
Ser enterrado vivo também sugere que os Chapéus com Aba consideravam o teste encerrado. Não houve tentativa de recuperar a criança, tratá-la ou acompanhar voluntariamente os efeitos. O caixão eliminaria a vítima e enterraria a evidência junto com ela. Qifrey sobreviveu porque foi encontrado por terceiros, não porque os responsáveis demonstraram qualquer preocupação.
A Silverwood transforma segurança em ameaça
A crueldade do experimento está na inversão que ele produz. Para a maioria das pessoas, ser salvo, acolhido ou consolado reduz o medo. Em Qifrey, esses momentos podem despertar a árvore dentro de seu corpo. A segurança deixa de ser apenas um alívio e passa a carregar o risco de uma transformação física.
Quando recupera as lembranças na Torre dos Tomos, Qifrey entende finalmente que é hospedeiro da Silverwood. Ao voltar abalado, recebe o consolo de Olruggio — e justamente esse conforto faz as raízes começarem a surgir. A cena demonstra que o experimento não terminou na infância. Ele continua regulando a forma como Qifrey se relaciona com as pessoas mais próximas.
A árvore também explica uma contradição do personagem. Qifrey deseja afeto, companhia e uma vida tranquila, mas precisa preservar tensão, culpa e ansiedade para conter a transformação. A magia dos Chapéus com Aba não roubou somente um olho. Ela alterou a maneira como seu corpo responde à felicidade.
O trauma explica a obsessão de Qifrey pelos Chapéus com Aba
Desde os primeiros arcos, Qifrey demonstra um interesse muito mais intenso pelos Chapéus com Aba do que revela às alunas. No anime, ele usa a tinta entregue a Coco para tentar rastrear o grupo e mantém partes da investigação escondidas até de pessoas próximas. Sua postura muda quando surge uma pista: o professor gentil dá lugar a alguém disposto a avançar sem dividir todos os riscos.

O olho perdido dá sentido a essa urgência. Qifrey não quer apenas impedir novos crimes; ele precisa recuperar a própria história e descobrir por que foi escolhido. Enquanto os responsáveis permanecerem ocultos, sua identidade continuará construída em torno de lacunas deixadas por eles.
Essa motivação não torna automaticamente todas as suas decisões corretas. O trauma explica por que ele aceita perigos, guarda segredos e ultrapassa limites, mas não elimina as consequências. Witch Hat Atelier evita transformar sofrimento em autorização moral. Qifrey pode ser vítima dos Chapéus com Aba e, ao mesmo tempo, ferir a confiança de quem tenta ajudá-lo.
Coco vira uma pista — e isso torna Qifrey ambíguo
Quando Coco revela que recebeu um livro e uma caneta de um misterioso bruxo mascarado, Qifrey reconhece a primeira pista concreta que encontra em muito tempo. Pela regra dos Chapéus Pontudos, ele deveria apagar a memória da garota. Em vez disso, oferece treinamento e a mantém por perto.
A decisão salva Coco de perder as lembranças e lhe dá uma chance de desfazer o feitiço lançado sobre a mãe. Também existe, porém, um interesse particular: a garota pode conduzi-lo até o grupo que destruiu sua infância. Ela é aluna, pessoa sob sua proteção e peça central de sua investigação ao mesmo tempo.

É por isso que o olho de Qifrey influencia diretamente a história de Coco. Sem aquele passado, ele talvez tivesse cumprido a regra e apagado tudo. O encontro dos dois nasce de uma combinação incômoda entre compaixão e conveniência. Qifrey realmente deseja ajudá-la, mas também vê nela uma rota para sua vingança e para respostas que procura desde criança.
O professor que usa as alunas também aprende a amá-las
A revelação do volume 16 aprofunda ainda mais essa ambiguidade. Em determinado momento, Qifrey conclui que conviver com aprendizes poderia lhe fornecer a preocupação e o estresse necessários para impedir a Silverwood de criar raízes. A ideia inicial possui um componente egoísta: organizar a própria vida ao redor de pessoas que, sem saber, ajudariam a manter seu corpo sob controle.
O plano, contudo, não funciona da maneira calculada. Ensinar Agott, Tetia, Richeh e depois Coco traz orgulho, alegria e vínculos verdadeiros. As alunas deixam de ser uma fonte conveniente de tensão e se tornam sua família. Qifrey passa a se preocupar genuinamente com o crescimento e a segurança de cada uma.

Esse desenvolvimento não apaga a origem problemática da decisão. Pelo contrário, torna o personagem mais humano. Ele tentou transformar relações em ferramenta de sobrevivência, mas descobriu que não conseguia controlar o afeto como controla um círculo mágico. Quanto mais ama o ateliê, maior é o conforto — e maior pode ser o risco criado pela árvore.
Olruggio mostra o preço que o experimento ainda cobra
Olruggio é a pessoa que mais diretamente divide esse peso com Qifrey. Quando os dois eram jovens e a Silverwood começou a criar raízes, surgiu uma solução extrema: apagar de Olruggio a memória do segredo. A culpa de Qifrey por fazer isso produziria a tensão necessária para conter a árvore.
O problema voltou a acontecer ao longo dos anos. Olruggio descobria a verdade, compreendia o perigo e aceitava novamente perder a lembrança para salvar o amigo. A troca dos adornos de seus chapéus representa o pacto entre os dois e o desejo de Olruggio de que Qifrey continue lutando para viver, mesmo quando ele não consegue recordar completamente a origem dessa promessa.

A relação revela uma consequência adicional dos métodos dos Chapéus com Aba. O experimento não atinge somente a vítima original. Ele obriga outra pessoa a sacrificar repetidamente parte de sua memória e transforma amizade em um mecanismo de sobrevivência. Qifrey sente amor, gratidão e culpa pela mesma pessoa, emoções que ajudam a mantê-lo humano e, paradoxalmente, impedem que a Silverwood o consuma.
O que isso revela sobre os Chapéus com Aba?
O caso permite tirar algumas conclusões seguras. Primeiro, há integrantes capazes de aplicar magia proibida diretamente em corpos humanos. Segundo, eles dominam técnicas de memória e sabem combiná-las com experimentos biológicos ou vegetais. Terceiro, escondem rastros e não demonstram compromisso com o consentimento das pessoas usadas.
Isso não significa que todos os Chapéus com Aba possuam a mesma motivação ou participem dos mesmos crimes. A organização reúne figuras com objetivos e comportamentos diferentes, e o mangá ainda preserva lacunas sobre quem ordenou o experimento, por que Qifrey foi escolhido e qual resultado pretendiam alcançar com a Silverwood.
Essa cautela importa. O olho revela a brutalidade de um método, mas não encerra o mistério da organização inteira. Ainda falta identificar os responsáveis diretos, compreender o propósito final do teste e descobrir se a retirada do olho tinha alguma função além de abrir espaço para a árvore parasita.
Qifrey carrega a prova de que liberdade mágica também pode virar abuso
Os Chapéus com Aba desafiam um sistema que restringe a magia e apaga lembranças para manter seu monopólio. Algumas perguntas levantadas por eles são legítimas: quem decide quais técnicas podem existir, quem tem direito ao conhecimento e até onde os Chapéus Pontudos podem controlar a vida das pessoas?
O corpo de Qifrey impede, porém, que essa rebeldia seja confundida com liberdade automática. Romper uma proibição não é o mesmo que agir de forma justa. Quando o conhecimento é buscado sem consentimento e uma criança é transformada em cobaia, a magia proibida reproduz outra forma de poder absoluto.
O olho perdido resume esse conflito. Ele é uma cicatriz, uma pista e uma ameaça ainda viva. Também explica por que Qifrey consegue reconhecer o perigo dos Chapéus com Aba antes de Coco: ele não aprendeu sobre seus métodos em um livro. Seu próprio corpo é o resultado do que eles estão dispostos a fazer.