Reiji não consegue separar Jiro do risco que Rago representa
Quando Reiji entra na equipe, o ponto mais importante não é simplesmente que ele acha Jiro irritante. Os dois vêm de linhagens ligadas às artes shinobi, mas chegam à unidade por caminhos muito diferentes. Reiji carrega a postura de quem foi moldado para obedecer a uma estrutura, medir ameaças e provar competência. Jiro, por outro lado, entra no radar da organização depois de sobreviver justamente por ter se fundido a Rago.
Para Reiji, isso cria um problema quase impossível de ignorar: como confiar plenamente em um agente cuja maior força também é uma entidade que pode atrair inimigos e mudar o equilíbrio de uma missão? A própria apresentação do volume 2 do mangá pela VIZ trata a presença de Rago dentro de Jiro como combustível direto para a rivalidade. O anime transforma essa tensão em ação no episódio 4, em vez de deixá-la apenas como desconfiança verbal.
Black Torch: por que Rago se selou por vontade própria? 8 min de leitura
É fácil reduzir Reiji ao “rival arrogante”, mas isso deixa metade da situação de fora. Ele é arrogante, sim, e claramente quer se medir com Jiro. Só que sua resistência também tem uma lógica prática. Rago não é uma mascote poderosa que acompanha o protagonista: outros mononoke querem sua força, e a organização ainda está tentando entender o que a fusão significa. Reiji olha para Jiro e vê uma variável que ninguém consegue controlar direito.
O duelo do episódio 4 expõe duas ideias opostas de força
Shiba coloca Jiro e Reiji frente a frente no episódio 4 como parte da avaliação de Jiro. O contraste é bem direto: Reiji usa sua habilidade com a espada e uma técnica disciplinada; Jiro responde com combate corpo a corpo e uma agressividade muito mais instintiva. A luta funciona porque nenhum dos dois está apenas tentando vencer. Cada um está, na prática, defendendo a própria forma de encarar o trabalho da unidade.

Reiji confia no que pode treinar, repetir e controlar. Jiro confia muito mais na leitura imediata da situação e no vínculo que criou com Rago. Por isso a presença do mononoke incomoda tanto: ela quebra a equação de Reiji. Não basta medir Jiro como lutador quando existe outra consciência, outro poder e outra vontade participando da mesma batalha.
Ao mesmo tempo, Jiro também tem um ponto cego. Ele sabe que Rago o salvou e já o trata como parceiro, então tende a enxergar a desconfiança externa como algo muito mais simples do que realmente é. Para quem está de fora, porém, ainda existe uma pergunta legítima sobre o que aconteceria se essa força saísse do controle. O duelo não resolve isso. Ele só deixa claro que a Black Torch foi formada com pessoas que ainda não compartilham a mesma definição de confiança.

A primeira missão prova que a desconfiança de Reiji não é totalmente absurda
O episódio 5 é onde a rivalidade começa a ficar mais interessante. Jiro e Reiji descem ao espaço subterrâneo ligado ao antigo selamento de Rago e encontram Koga, um mononoke que quer justamente colocar as mãos nele. De repente, aquilo que Reiji tratava como risco teórico vira o centro de uma ameaça real.

Esse detalhe importa porque o episódio não simplesmente “prova que Reiji estava certo”. Ele prova que Rago realmente atrai perigo, mas também mostra por que a resposta não pode ser tratar Jiro como inimigo. Quando a ameaça aparece, Jiro, Rago e Reiji precisam agir do mesmo lado. A existência do risco exige mais cooperação, não menos.
É aí que a relação começa a sair daquele molde básico de rivalidade. Reiji continua competitivo e desconfiado, mas agora possui experiência de campo ao lado de Jiro. Ele viu a ameaça que envolve Rago e também viu como Jiro reage quando a situação deixa de ser um teste controlado. Isso vale mais do que qualquer discurso de Shiba dizendo que os dois precisam se entender.
A VIZ resume bem a mudança ao destacar que, depois da briga entre os dois, a primeira missão expõe que os integrantes da Black Torch ainda são adolescentes participando de uma guerra muito maior do que eles. Para mim, esse é o ponto que dá algum peso à rivalidade: ela não existe num clube escolar em que perder significa orgulho ferido. Uma leitura errada do parceiro pode custar uma missão inteira.
O episódio 6 mostra o que existe por trás da necessidade de controle de Reiji
O treinamento criado por Fuyo no episódio 6 muda o foco. A prova coloca Jiro, Ichika e Reiji dentro de um espaço de ilusão e força cada um a lidar com aquilo que carrega por dentro. No caso de Reiji, o anime deixa explícito que existe trauma pessoal por trás de uma postura que até então podia parecer apenas frieza, vaidade ou rigidez.

Isso não apaga o jeito difícil dele nem transforma toda a hostilidade anterior em algo automaticamente justificável. Faz algo melhor: explica por que Reiji precisa tanto acreditar que força vem de disciplina e controle. Se ele consegue organizar o mundo em regras claras — ameaça de um lado, aliado do outro; técnica correta de um lado, imprudência do outro — então há menos espaço para repetir uma perda que ele não conseguiu controlar no passado.
Jiro e Rago são praticamente a pior combinação possível para alguém com essa necessidade. Eles existem numa zona cinzenta. Um humano e um mononoke dividem o mesmo corpo, cooperam por escolha própria e desafiam a ideia de que a natureza de uma criatura já determina de qual lado ela ficará. Reiji não precisa apenas aprender a lutar ao lado de Jiro; ele precisa aceitar que nem todo risco pode ser eliminado antes da missão começar.
Então Reiji está certo em desconfiar de Jiro e Rago?
Ele está certo sobre o risco, mas exagera quando transforma esse risco em julgamento sobre Jiro. Até o episódio 6, a história já mostrou que a presença de Rago realmente atrai inimigos e cria situações que a organização não controla completamente. Ser cauteloso seria razoável mesmo sem a rivalidade pessoal.
O erro de Reiji é imaginar que controle e confiabilidade são a mesma coisa. Jiro é imprevisível, mas suas decisões até aqui seguem um padrão bastante consistente: proteger quem está ao redor e tratar Rago como parceiro, não como ferramenta. Rago, por sua vez, também age com vontade própria. Isso torna a dupla mais difícil de administrar, mas não necessariamente menos confiável em campo.
A graça dessa relação está justamente em não virar amizade de uma hora para outra. Depois da luta, da primeira missão e do treinamento de Fuyo, Reiji ainda tem motivos para manter a guarda alta. O que muda é que ele já não pode avaliar Jiro apenas pela presença de Rago. Agora há experiência compartilhada no meio da equação.
É por isso que o conflito funciona melhor quando Black Torch não tenta decidir simplesmente qual dos dois “tem razão”. Reiji representa a necessidade de controlar uma ameaça real; Jiro mostra o limite dessa lógica quando a ameaça também é uma pessoa capaz de escolher. Se a equipe realmente vai funcionar, a confiança entre eles provavelmente não virá de eliminar esse risco, mas de aprender como cada um reage quando o risco finalmente aparece.