Só que essa é apenas a versão pública. O mangá revela depois que Harald, já submetido ao poder de Imu, pediu ao próprio Loki que o matasse. Loki escolheu esconder a verdade e carregar a culpa para não destruir o legado do pai. Por isso, entender as correntes exige separar três coisas diferentes: o crime que Elbaf acreditava que ele havia cometido, o perigo real que Loki representava e o motivo ainda incompleto pelo qual Shanks o trouxe de volta seis anos atrás.

Para Elbaf, Loki era o assassino do rei Harald
Quando Loki é apresentado, a história que circula em Elbaf parece simples. O “príncipe amaldiçoado” teria matado o próprio pai para colocar as mãos na Akuma no Mi lendária guardada pela família real. A versão é tão consolidada que o próprio material oficial do anime apresenta Loki dessa forma: um homem preso à Árvore Adam depois de assassinar Harald em busca do fruto.
Quem são os Cavaleiros de Deus e qual é sua função em Elbaf? 8 min de leituraEssa acusação não cai sobre alguém com reputação neutra. Loki já havia passado a vida acumulando medo, rejeição e histórias violentas ao seu redor. Quando Harald morre e Loki aparece como responsável direto pelo golpe fatal, quase ninguém precisa de uma explicação mais complexa para acreditar no pior. O passado do príncipe funciona como prova emocional antes mesmo de qualquer investigação.
É justamente aí que o arco de Elbaf faz algo mais interessante do que simplesmente revelar que “Loki era inocente”. Ele realmente matou Harald. O que muda é o sentido do ato. A população enxergou parricídio motivado por ambição; o flashback mostra um filho obrigado a executar a última vontade do pai para impedir uma catástrofe.
Essa diferença explica por que a prisão podia parecer completamente justificável para os gigantes que não estavam no castelo. Eles não tinham acesso ao contexto que o leitor recebe centenas de capítulos depois da primeira acusação. Na perspectiva pública, libertar Loki significaria soltar o homem que matou o rei mais respeitado de Elbaf e ainda tomou para si um poder guardado havia gerações.
As correntes de Kairouseki não eram exagero
Mesmo depois que a verdade sobre Harald muda nossa leitura moral de Loki, isso não transforma o príncipe em alguém inofensivo. Antes de ser acorrentado, ele saiu para o mar, entrou em conflito com o Governo Mundial e acumulou uma recompensa especial de 2,6 bilhões de berries. O mangá deixa claro que estamos falando de alguém capaz de causar estragos em escala muito acima de um prisioneiro comum.
Por isso as correntes não são apenas símbolo de punição. Elas são um mecanismo de contenção. O Kairouseki, ou Pedra do Mar, enfraquece usuários de Akuma no Mi e impede que Loki simplesmente trate as algemas como metal comum. Isso é ainda mais relevante porque o fruto que ele herdou da família real está ligado a uma transformação e a um poder destrutivo que Elbaf tinha motivos de sobra para temer.

A diferença aparece assim que a contenção deixa de funcionar. Mesmo ferido, Loki consegue voltar a empunhar Ragnir e demonstrar força suficiente para alterar o campo de batalha. O contraste é importante: as correntes não criaram a fama de monstro; elas foram escolhidas porque Elbaf já sabia o que poderia acontecer se alguém daquele tamanho, com aquela fruta e aquele nível de Haki, recuperasse liberdade de movimento.
Também vale separar Kairouseki de Haki. Um Haki poderoso pode resistir a determinados efeitos de Akuma no Mi em situações específicas, como o próprio Yoruneko já explicou ao tratar da relação entre Haki e poderes de Frutas do Diabo. Kairouseki funciona de outra forma: ele explora a fraqueza compartilhada pelos usuários de frutas e reduz diretamente a capacidade de Loki de agir enquanto permanece preso.
A verdade sobre Harald muda a condenação de Loki
O ponto que desmonta a versão oficial aparece no flashback do mangá. Harald não morre porque Loki decide tomar o trono ou porque deseja o fruto lendário por ganância. O rei havia se aproximado do Governo Mundial acreditando que isso poderia beneficiar Elbaf, mas acaba ligado ao poder de Imu por meio de um pacto que altera sua vontade e o transforma em uma ameaça para o próprio país.
Quando Harald consegue recuperar consciência por breves momentos, entende que não pode confiar em si mesmo para permanecer no controle. A solução que encontra é brutal: manda Loki comer a Akuma no Mi da família real e usar esse poder para matá-lo antes que ele destrua aquilo que passou a vida tentando construir.
Isso conecta o drama de Loki diretamente ao conflito maior de Elbaf com os Cavaleiros de Deus. O Governo Mundial não aparece na história do príncipe apenas depois de sua prisão. A tragédia que fez Elbaf chamá-lo de assassino já nasce da interferência desse mesmo sistema de poder.
Gaban é uma peça importante nessa virada porque estava entre as pessoas que conheciam o que realmente aconteceu no castelo e, no presente, confirma a versão contada por Loki. Isso impede que a revelação dependa apenas da palavra do próprio acusado.

Loki então faz algo que parece contraditório até o flashback esclarecer sua lógica: ele não tenta limpar o próprio nome. Em vez de contar ao país que Harald havia sido manipulado e que o rei pediu para morrer, aceita que a população continue acreditando na versão em que ele é o culpado.
A escolha preserva Harald como o rei que tentou afastar Elbaf de um passado de violência e aproximá-la de um futuro melhor. Se Loki revelasse tudo imediatamente, o legado do pai passaria a terminar não com o sacrifício de um governante, mas com a imagem de Harald transformado em instrumento de um poder estrangeiro e atacando o próprio povo. Loki prefere ser odiado a permitir que essa seja a lembrança dominante.
Jarul impedir a execução ajuda a explicar por que a prisão continuou
A população de Elbaf queria uma punição compatível com o crime que acreditava ter acontecido. Jarul, por outro lado, conhecia a verdade e tinha motivos para não permitir que Loki fosse simplesmente executado como assassino de Harald. O resultado é uma situação estranha: o país continua tratando Loki como culpado, enquanto uma das poucas pessoas que sabe o que ocorreu trabalha para mantê-lo vivo.
Isso ajuda a entender por que as correntes duram tanto. A prisão preserva a narrativa pública sem levar a condenação até a morte de alguém que Jarul sabe que não matou Harald por ambição. Não há uma cena dizendo literalmente que “o Submundo foi escolhido como compromisso entre Jarul e o povo”, então transformar isso em regra oficial iria além do mangá. Mas a sequência dos acontecimentos mostra claramente que manter Loki preso era compatível com as duas necessidades ao mesmo tempo: Elbaf via um criminoso contido; Jarul evitava sua execução.
O próprio Submundo também é um lugar funcional para isso. É uma região isolada abaixo do Mundo do Sol, cercada por criaturas perigosas e afastada da vida cotidiana dos gigantes. Prender Loki ali reduz contato com a população e cria espaço para conter alguém cujo tamanho e força tornam uma cela convencional pouco convincente. De novo, essa é uma leitura prática da geografia apresentada pela obra, não uma explicação formal dada por um personagem sobre a escolha do local.
Shanks derrotou Loki, mas o motivo completo ainda não foi mostrado
A parte mais fácil de distorcer é a relação entre Shanks e a prisão. O mangá estabelece que Loki passou anos no mar depois da morte de Harald, acumulou sua recompensa e acabou derrotado por Shanks cerca de seis anos antes dos acontecimentos atuais. Depois disso, o príncipe voltou a Elbaf e terminou acorrentado à Árvore Adam.

Os capítulos recentes acrescentam uma peça que torna essa história bem menos aleatória. No capítulo 1189, Loki relembra que, no dia da morte de Harald, Shanks tentou convencê-lo a não se lançar imediatamente contra o Governo Mundial. Shanks sabia que o problema era maior do que os Cavaleiros de Deus que estavam diante deles e falou sobre um “Rei do Mundo” por trás daquela estrutura. Loki, consumido pela vontade de vingar Harald, não queria esperar.
Isso cria uma leitura muito plausível: anos depois, quando Shanks encontra Loki atacando o Governo Mundial no mar, derrotá-lo pode ter sido uma forma de impedir que ele continuasse correndo diretamente para uma guerra que Shanks já havia dito que não podia ser vencida daquele jeito. Mas o mangá ainda não mostrou o confronto completo entre os dois nem confirmou essa motivação como a razão oficial da captura.
Esse limite importa. Dizer agora que “Shanks prendeu Loki para protegê-lo até a chegada de Luffy” transforma uma possibilidade narrativa em fato. O que podemos afirmar é menor e mais interessante: Shanks já conhecia a verdade sobre Harald, já havia alertado Loki sobre o inimigo real e, seis anos atrás, foi o homem capaz de interromper a campanha do príncipe no mar.

A peça que falta é saber o que foi dito e decidido naquele reencontro. Shanks queria apenas deter um pirata perigosíssimo? Queria impedir uma vingança prematura? Havia um acordo com Jarul? Loki resistiu até o fim ou entendeu parte da intenção de Shanks? Até o capítulo 1190, a obra ainda não fechou essa lacuna.
É por isso que as correntes de Loki funcionam tão bem como mistério de Elbaf. Elas começaram parecendo prova de que o “príncipe amaldiçoado” era exatamente o monstro descrito pelos gigantes. Depois, cada revelação remove uma camada: Harald pediu para morrer, Loki escolheu ser odiado, Jarul evitou sua execução e Shanks sabia muito mais sobre o Governo Mundial do que parecia. A prisão continua sendo real, mas o significado dela mudou completamente.